[RESENHA] Ecos Bastardos - Antonio DiMarco

Olá, viajantes!

Há algum tempo, anunciei na página do blog no Facebook (se você ainda não curte a página, clica aqui e acompanhe a gente por lá também!) a nossa parceria com a Aberst, uma associação de escritores dedicada exclusivamente aos gêneros suspense, terror e policial. Hoje, trago para vocês a primeira resenha dessa parceria: conheçam Ecos Bastardos, um conto de Antonio DiMarco!

Ecos Bastardos

TÍTULO: Ecos Bastardos
AUTOR: Antonio DiMarco
EDITORA: Pyxidis
NÚMERO DE PÁGINAS: 18 páginas
SINOPSE: Alzira era casada com Augusto e moravam em uma bela residência na serra de Nova Friburgo. Frustrações encobriram a felicidade que um dia existiu e Augusto teve um filho com a empregada da casa. Uma década depois, a criança desapareceu, a empregada também e o tempo levou Augusto e, por fim, Alzira. Todos se foram, mas o casarão permaneceu firme, esquecido em meio à crescente vegetação, assim como seus muitos segredos. Intrigado com a história contada por Clarissa, Sergio a convida para um final de semana romântico na serra, incluindo uma providencial visita ao misterioso casarão. Descobrirão algo sobre o passado? Ou sobre o presente? Entre no velho casarão e descubra por sua conta e risco!

    

Clarissa e Sergio são um casal jovem, aventureiro e cheio de vida. Em uma conversa entre os dois, Sergio menciona seu interesse por uma história que a companheira nunca esclareceu: a de seus tios Alzira e Augusto, cujo casamento era marcado por tragédias cheias de mistério e segredos. Contar a história do casal para Sergio obviamente incluiria falar acerca do casarão onde eles moravam, e é assim que Clarissa se vê envolvida involuntariamente em um passeio ao lugar, por insistência de seu namorado. Mas esta aventura reservaria surpresas nada atraentes para os dois e eles vão precisar estar preparados para as consequências.

Olhando para o enredo do conto escrito por DiMarco, um leitor mais desavisado pode ser levado a acreditar que a trama nele contida é bastante despretenciosa. O que eu quero deixar claro já no início dessa resenha é: nada aqui é o que vocês estão pensando! Com cerca de vinte páginas e uma história marcada por segredos, mentiras, traição e reviravoltas, Ecos Bastardos foi uma grata surpresa para mim. Eu li o conta em bem menos de uma hora, não devido a sua extensão, mas ao fato de que eu não consegui tirar os olhos da leitura até tê-la terminado.

Com uma narrativa fluida e gostosa de acompanhar, o autor conseguiu criar um enredo original e envolvente em cima daquilo que todos nós já conhecemos do gênero suspense: a aura de intrigas, perigo e tensão sempre presente. Somos apresentados ao casal protagonista logo de cara e é com eles que vamos conhecer a história de Alzira e Augusto e, consequentemente, a do casarão onde os dois residiram em vida. A narração em terceira pessoa foi uma escolha muito acertada por parte do autor, uma vez que ela permite apreender vários detalhes que as próprias personagens não conheciam, ao mesmo tempo que dá ao leitor uma visão mais completa e ampla de tudo que acontece ao longo da trama.

Apesar de não termos uma construção aprofundada de personagens, conseguimos saber tudo que precisamos a respeito deles. Clarissa é uma jovem cheia de vida e apaixonada e Sergio é um amante de leitura curioso e persuasivo. Ao revirar as memórias de sua família, a mocinha não esperava o desfecho que estava por vir, assim como seu companheiro foi surpreendido por tudo que aconteceu na incursão ao casarão. Falando em casarão, eu preciso dizer que, na minha opinião, ele é uma das figuras mais imponentes e fundamentais dessa narrativa: é lá que acontece toda a história de Alzira e Augusto e é lá que conhecemos o desenvolvimento da viagem de Clarissa e Sergio. Existe dentro da casa um eterno clima de nostalgia, aliado a uma presença constante, que o leitor vai sentir junto aos dois pombinhos no decorrer da visita ao local.

Independente de não ser o foco, não posso deixar de mencionar aqui o fator histórico que também entra em jogo ao longo do conto. O enredo envolvendo Alzira e Augusto passou-se em outra época, diferente da atualidade, na qual se desenrola o conto em questão. Por conta disso, a narrativa dos dois é marcado por costumes sociais daquele período: o grande problema do casamento dos dois era o fato de que Alzira não poderia ter filhos e foi exatamente isso que levou Augusto a se relacionar com a empregada da casa, cujo ventre gerou, enfim, o herdeiro que ele tanto queria. A partir daí, vários paralelos se desenvolvem: a convivência dos três dentro da mesma casa, a submissão de Alzira ao marido e sua aceitação da traição, a vida da criança e as tragédias que se seguem a esse cenário. De alguma forma, esse aspecto histórico se torna extremamente relevante se pensarmos na consistência e na riqueza do enredo em si. É esse pezinho na história que traz complexidade à trama aqui contada.

Por último, mas não menos importante, eu não posso encerrar essas impressões sem falar do final desse conto, que me deixou completamente sem fôlego. Apesar de eu já prever que algo fosse acontecer (porque, afinal, é um conto de suspense) e conseguir elaborar alguns desfechos possíveis na minha cabeça, nada poderia me preparar para a angústia que o autor conseguiu transmitir ao longo das últimas páginas do conto. Tudo aconteceu rápido, de forma precisa e sem enrolação; os fatos são apresentados, as cartas são jogadas e todas as pontas soltas se encaixam de alguma maneira.

Antes que eu dê algum spoiler que possa estragar a leitura de vocês, termino por aqui minhas considerações, mas não sem antes destacar mais uma vez o quanto eu curti a experiência de leitura. Foi a primeira vez que eu li algo do autor e com certeza não será a única! Se você ficou curioso e também quer conhecer a história de Ecos Bastardos, esse é o link da Amazon para vocês baixarem o conto. Mas não esqueçam de vir me contar suas impressões e dizer se ficaram tão pasmos quanto eu ao final da leitura. Até a próxima postagem, viajantes!

[RESENHA] A Irmã - Louise Jensen

Olá, viajantes, tudo bem com vocês?

Hoje a gente vai de resenha, e o livro que eu apresento a vocês foi lançado pela editora Única e escrito por Louise Jensen. Conheçam A Irmã, e se surpreendam comigo com o fato de que nem tudo parece realmente é.

A Irmã

TÍTULO: A Irmã
AUTOR: Louise Jensen
EDITORA: Única
NÚMERO DE PÁGINAS: 304 páginas
SINOPSE: Grace nunca mais foi a mesma depois da morte de sua melhor amiga, Charlie. Sua vida estava desmoronando sem que ela conseguisse se mexer: não conseguia mais trabalhar nem sair, e o abismo entre ela e Dan, seu único amor, parecia aumentar a cada dia. Atordoada pelas palavras que Charlie lhe disse no último encontro que tiveram, Grace sabe que precisa fazer alguma coisa para conseguir seguir em frente antes que seja tarde demais. Em busca de respostas, Grace resolve recuperar uma antiga caixa de memórias que ela e Charlie haviam enterrado ainda na adolescência. Lá, Grace descobre uma carta de Charlie, revelando o desejo da amiga de encontrar seu pai, Paul, a quem ela nunca conhecera. Será que foi por isso que Charlie fugiu por seis anos? Será que Paul teria alguma pista que explicasse o que aconteceu com sua melhor amiga? Enquanto procura por Paul, Grace conhece Anna, uma garota que se declara irmã de Charlie, alguém que rapidamente invade a vida e a casa de Grace. Mas algo não está certo. Dan está Cada vez mais distante e Grace tem certeza de que alguém a está seguindo. Será tudo isso coisa de sua cabeça? Quanto mais Grace se aproxima da verdade sobre Charlie e Anna, mais ela corre perigo. Ela conseguirá se salvar?

    

Grace sempre foi uma garota insegura por estar fora do padrão de beleza estabelecido pela sociedade, e por isso encontrava em sua melhor amiga Charlie seu abrigo e exemplo. Totalmente oposta a ela, Charlie emanava personalidade, feminilidade e confiança, apesar de todos os problemas que a envolviam, e isso era uma das coisas que Grace mais admirava na amiga. Por conta de toda essa ligação entre as meninas, foi um choque terrível para Grace perder Charlie tão repentinamente, sem nenhum tipo de aviso prévio e em uma situação totalmente atípica. O mundo da garota desmoronou, e com ele qualquer relação mais efetiva que ela poderia ter com Dan, seu então marido.

O sofrimento não deixava o coração de Grace, que logo se viu ainda mais envolvida com a situação ao encontrar uma caixa que as garotas construíram juntas e enterraram em um lugar simbólico para as duas. Nela, Grace encontrou um bilhete misterioso de Charlie, que não conseguia compreender. Em busca de respostas e de uma maneira de, enfim, descansar e seguir adiante com sua vida, Grace resolve realizar a maior vontade da amiga: identificar e contatar seu pai biológico. O que ela não esperava é que, ao invés do pai da garota, batesse de frente com uma irmã que, assim como Charlie, entrou intensa e definitivamente nos dias e na mente de Grace. Anna era parecida com a amiga que ela havia há pouco perdido e, por mais que não pudesse substituir Charlie, trazia uma pontinha de consolo para Grace. Mas logo coisas estranhas começam a acontecer e Grace vai perceber que as aparências, na maioria das vezes, são apenas máscaras ocultando as verdadeiras intenções.

Falar de A Irmã é um pouco difícil pra mim, confesso, porque esse foi um livro que mexeu muito comigo, em todos os sentidos. Se existisse uma palavra com a qual eu definiria essa história, a palavra seria intensidade. A trama não inicia frenética; nos primeiros capítulos somos introduzidos ao contexto e às personagens, entendemos seus dramas, seus medos, suas angústias, e só então o enredo principal começa a se desenrolar. Essa é uma escolha interessante da autora, assim conseguimos aprofundar-nos nas personagens, conhecer suas personalidades e entender as atitudes que levaram a tais caminhos, que trouxeram determinados desfechos como consequência. Acho importante destacar que a história não é linear, mas sim repleta de flashbaks. Com capítulos divididos entre "Antes" e "Agora", somos apresentados aos sentimentos mais íntimos da Grace, narradora da história, e é a partir da visão dela que conhecemos não apenas a trama, mas as outras personagens que fazem parte dessa história. 

Quando entramos na segunda parte do livro, aquela em que tudo realmente acontece, as coisas se tornam obscuras, cruéis e até mesmo assustadoras. A partir desse momento, a aura do livro muda, e o leitor é envolvido em um clima de tensão, permanente e crescente, que desemboca em surpresas tão sinistras quanto perturbadoras. Eu confesso que o desfecho do livro foi um pouco previsível para mim, pelo menos parte dele, mas isso não anula em momento algum o impacto que os acontecimentos tem sobre mim, como leitora, ou o poder que eles possuem de me chocar, total e constantemente.

Na minha opinião, um thriller que se preze precisa ser também um suspense, o que quer dizer que o mistérios, os segredos e a ambiguidade são elementos definidores de grande parte do sucesso de uma trama desse gênero. E Jensen nos entrega tudo isso magistralmente: as peças do quebra-cabeças que essa história se torna não são dadas todas de uma vez ou de uma maneira fácil. O leitor descobre os fatos verdadeiros no mesmo momento em que a protagonista e precisa, assim como ela, colocar cada pedacinho em seu devido lugar para que, enfim, tenhamos as respostas que buscamos. E quando elas chegam, senhores, todos os forninhos vão cair por terra! Jensen construiu um enrendo complexo, cheio de possíveis alternativas, e ela consegue escolher justamente aquela que nos deixa mais estarrecidos. São várias as ligações e intrincamentos que acontecem ao longo da narrativa, sejam elas de personagens, de fatos, de histórias, é um entrecruzamento danado que, ao mesmo tempo em que te deixa confuso e doido para entender tudo logo, é o que mantém a trama interessante e, eu diria até, viva e pulsante, pulando das páginas do livro.

Grace é uma protagonista com a qual eu me identifiquei bastante. As inseguranças dela com relação ao próprio corpo, à própria auto-confiança, à própria autossuficiência, já forma e ainda são as minhas também, e tenho certeza que as de muita gente por aí. Apesar da inteligência, do bom-humor, da meiguice, a garota nunca se percebe definitivamente boa. É como se Charlie representasse tudo aquilo que ela jamais seria, e isso a fazia praticamente idolatrar a amiga. Ao contrário do que possa parecer, não havia nenhuma inveja na relação das duas: elas realmente se amavam e se protegiam, independente dos problemas que cada uma pudesse ter. É bonito acompanhar a amizade entre as personagens porque é um sentimento mútuo e extremamente verdadeiro, que comove e encanta. Por isso eu sofri tanto com a Grace com tudo que acontece durante e depois da morte de Charlie, porque é impossível não exercer a empatia quando se trata dessa personagem. É claro que algumas vezes eu perdi a paciência com ela (principalmente com relação à autopiedade, que afastava praticamente todos que ela mais amava), mas eu consegui entender as razões que a levavam a tais atitudes ou pensamentos, e por isso ficava fácil me solidarizar com ela.

O mesmo, na verdade, aconteceu com Anna. Ela é uma das personagens mais emblemáticas que eu já conheci e eu não posso falar muito dela para não correr o risco de soltar um spoiler gigante e atrapalhar a leitura de vocês, mas eu posso dizer que Anna me surpreendeu a todo momento. Ela é extremamente parecida com a Charlie, aquele tipo de menina que sabe o poder que tem e não tem medo de usá-lo, a qual muitos admiram e outros simplesmente invejam, mas ninguém consegue ser indiferente. Nem mesmo Grace. Depois que se conheceram, as duas se aproximaram tanto e tão rapidamente, que até eu fiquei surpresa. Anna tinha a habilidade de quebrar todas as barreiras que Grace havia imposto entre si e o resto do mundo e foi por isso que ela conseguiu chegar tão perto da garota. E foi por isso que eu a odiei em muitos momentos, e a amei em outros tantos.

Lexie é a mãe de Charlie e é uma mulher complicada. Ela sempre teve todo tipo de problemas, todos eles relacionados ao seu vício em bebida alcoólica. Exagerada, desbocada, encrenqueira, Lexie era todos os extremos juntos, desde o início do livro. Não sei se posso classificá-la como uma boa mãe, mas ao longo da narrativa vamos descobrindo que ela realmente amava Charlie, apenas não sabia como demonstrar isso, porque nunca havia sentido amor de nenhum lado. Assim como aconteceu com as outras personagens (com o Dan inclusive), minha relação com a Lexie foi do amor ao ódio e do ódio ao amor muito rapidamente, e as vezes eu nem conseguia distinguir o motivo que me levou a isso. Na verdade, esse é o ponto mais interessante das personagens para mim: elas são tão reais, tão comuns, tão humanas, que não é possível julgá-las a partir de parâmetros únicos e imutáveis. Assim como qualquer um de nós, elas são capazes de coisas abomináveis, que vão fazer o leitor detestá-las, mas também são capazes de realizar ações altruístas. É difícil dizer que não é possível compreender cada uma delas, cada pensamentos e traço de personalidade. Tudo aqui tem um porquê, e as vezes vai doer descobri-los, então estejam preparados.

Quando todos os enigmas estão solucionados, quando nosso coração já está em pedaços e a gente realmente acha que não existe mais nada, a autora nos brinda com um final maravilhoso, que deixa acesa aquela pontinha de esperança no final do túnel das desgraças. É por isso que esse livro me marcou tanto: ele definitivamente retrata a vida humana. É claro que nem todo mundo vai passar pelas situações que as personagens enfrentam aqui, nem literal nem figurativamente, mas essa aura de final mais ou menos feliz, de existir uma chance de felicidade pelo menos, é o que faz todos nós seguirmos em frente depois de uma situação complicada. Olhar para frente, enxergar tudo e todos que temos, e superar é uma das possibilidades mais bonitas que a vida nos proporciona, e é exatamente isso que acontece aqui.

Se você, querido viajantes, está esperando uma leitura fácil, passe longe de A Irmã, por enquanto. Mas se possível, depois de preparado e dispostos, dê uma chance a esse livro. Ele não é apenas um thhriller muito bem composto e escrito, é também uma história de medo, perdas e superação. Depois que lerem venham debater comigo, por favor! Até a próxima postagem!

[RESENHA] Anhangá, a Fúria do Demônio - J. Modesto

Olá, viajantes!

Hoje trago para vocês mais uma resenha de um livro escrito pelo nosso parceiro J. Modesto, cheio de ação e batalhas de tirar o fôlego. Conheçam Anhangá, a Fúria do Demônio, e embarquem vocês também nessa aventura!

Anhangá - A Fúria do Demônio

TÍTULO: Anhangá, a Fúria do Demônio
AUTOR: J. Modesto
EDITORA: Giz Editorial
NÚMERO DE PÁGINAS: 246 páginas
SINOPSE: 300 anos antes do descobrimento, um naufrágio no litoral brasileiro traz para o mundo ainda não explorado um demônio que logo será conhecido pelos nativos como Anhangá. Um feiticeiro mouro, único sobrevivente da tripulação da nau que trouxe o demônio aprisionado, um poderoso pajé e guerreiros de tribos rivais formam uma aliança para derrotar a criatura, sabendo que a morte os aguarda!
 

   

Nossa história começa ainda antes do descobrimento do Brasil. Kaudemuns, um poderoso e ganancioso feiticeiro, queria dominar o poder total a qualquer custo. Para isso, decidiu que precisava de ajuda. Foi nesse momento que, munido de uma magia incontrolavelmente forte, deu vida aos Demônios Elementais, juntamente às Pedras Elementais, que permitiam ao feiticeiro controlar as criaturas. Mas a ambição de Kaudemuns fazia-o cego para qualquer outra coisa e assim, utilizando seu poder de manipulação, e demônio do elemento Terra conseguiu enganar o feiticeiro e libertar a ele e seus irmãos do encantamento. Desesperado, de algum modo o feiticeiro conseguiu fugir do golpe fatal das criaturas e fugiu, levando consigo as Pedras Elementais. 

Anos após o acontecido, o Demônio da Água foi, enfim, aprisionado em seu próprio elemento pelos guerreiros templários, ajudados por um mago mouro de nome Mohamed com uma magia poderosa. Os guerreiros, então, decidiram colocar a criatura em um navio e transportá-la através do além-mar, por onde acreditariam chegar à borda do mundo. Lá, eles pretendiam jogar o Demônio ao abismo, condenando-o à morte. Mesmo contrariado, Mohamed aceitou participar da viagem, para que pudesse ele mesmo manter a prisão da abominável criatura intacta. O que a comitiva não esperava era que o Demônio, ajudado pela água do mar, conseguisse libertar-se. O resultado foi a destruição total do barco onde se encontravam e a morte de todos os guerreiros. Apenas Mohamed conseguiu, milagrosamente, sair com vida.

Longe de toda essa confusão estão os índios Tupiniquins e Tupinambás, que mal imaginam, ainda, que serão jogados no meio do furacão com a chegada do Demônio em suas terras. Avisado por Tupã de um companheiro recém-chegado que poderia ajudá-los na luta contra a poderosa criatura, que já havia devastado várias aldeias e matas, um Pajé da tribo Tupiniquim receber Mohamed como o guerreiro que é e, junto aos índios sobreviventes, eles partem em mais um jornada perigosa para exterminar a temida criatura.

Anhangá, a Fúria do Demônio, é um livro cheio de intensidade. Diferente do livro anterior do autor já resenhado aqui no blog (vocês podem conferir a resenha nesse link), essa é uma narrativa que tem ação do início ao fim, literalmente. O autor nos brinda com uma história bastante particular em todos os seus elementos, mas extremamente envolvente, cujas leitura é fluida e tão rápida que fica difícil acompanhar todos os acontecimentos.

Narrado em terceira pessoa, o livro tem vários focos narrativos, que se alternam no decorrer dos capítulos. Isso é um estratégia interessante pois, como temos diversos personagens para acompanhar e entender ao longo do enredo, ver a história através da perspectiva de cada um deles, mesmo que estas personagens não sejam as vozes da narrativa, dá ao leitor a oportunidade de compreender o desenvolvimento não apenas destes protagonistas, mas também do enredo como um todo, com todas as suas implicações e intrincamentos.

Falando em personagens, assim como em Trevas, aqui o elenco é vasto. Temos o Pajé, o índio Acauã, Mohamed, o próprio Demônio Elemental, isso sem falar em todos aqueles que acabam por padecer nas batalhas (e de alguns, eu confesso, senti falta). O mais interessante e admirável em toda essa gama de personagens é que o autor consegue construir cada um com sua personalidade única e diferente de todos os outros. Não só através dos diálogos, mas também das atitudes de cada um, somos capazes de reconhecê-los e diferenciá-los sem maiores dificuldades. E nenhum deles é deixado de lado no enredo: todos tem sua função bem definida e fundamental para o desenvolvimento da narrativa e, até mesmo, o desfecho final. Alguns deles, como o feiticeiro Kaudemuns, não aparecem ao longo do livro, são apenas mencionados, e mesmo assim são indispensáveis à trama como um todo. Temos até uma aparição do Curupira, gente!

Aqui entramos em outro ponto fundamental e super positivo do livro pra mim: o cenário. O autor fez um trabalho incrível com esse livro! Como o próprio nome já diz, grande parte da história se passa em terras brasileiras, antes do descobrimento, quando as tribos indígenas ainda habitavam e eram donas dessas terras. O que leva o leitor a uma viagem incrível sobre os costumes, a cultura e toda a riqueza que envolve esses nossos antepassados. Temos nomenclaturas indígenas, cenários paradisíacos dos quais nem fazíamos ideia, temos rituais, celebrações e batalhas, tudo isso num complexo e intrincado enredo. A exaltação que o autor faz não apenas do país, mas dos povos indígenas, tão importantes na história do Brasil, é não apenas interessante como mágica e encantadora.

Agora o porquê das quatro estrelas, enfim: eu sei que esse não é o foco do livro e, apesar de o autor ter feito um belíssimo trabalho tecendo o cenário e as personagens, eu confesso que senti um pouco de falta de um pouco mais de aprofundamento nos costumes e na própria cultura indígena, além da questão dos templários, que são essenciais para a trama (temos um capítulo dedicado à explicação da fuga do Demônio, mas aqui eu estou falando da própria ordem). Mas, Patrini, isso não é um livro de história! Sim, galera, eu sei, mas eu sou extremamente curiosa, e se é pra realmente mergulhar em assuntos tão interessantes, ricos e encantadores quantos esses, eu gostaria de ir com tudo, de cabeça mesmo.

No entanto, esse foi um detalhe do qual eu, unicamente, senti falta. Em momento nenhum isso atrapalha a leitura ou diminui a grandiosidade da história aqui narrada. Eu adorei ter contato com essas culturas distintas, adorei a mistura do sobrenatural com o histórico que, mais uma vez, deu muito certo e trouxe riqueza e complexidade ao enredo, adorei mais ainda as batalhas épicas que foram travadas entre Demônios e humanos, que são de tirar o fôlego ao ponto de não conseguirmos desgrudar os olhos da leitura. Se você, assim como eu, curte livros cheios de ação, intensidade e surpresas, Anhangá, a Fúria do Demônio, é um prato cheio! Garanto que vocês não vão se arrepender da leitura. Boa viagem e cuidado: a criatura pode estar à espreita em qualquer etapa do caminho! Até a próxima postagem!

[NAS TELAS] A Barraca do Beijo

Olá, viajantes!

Hoje eu trago mais uma (pseudo) crítica de filme para vocês, e eu realmente espero que curtam. A Barraca do Beijo é um filme produzido originalmente pela nossa amada salvadora de dias tediosos Netflix e apresenta uma proposta bem clichê e adolescente de enredo, o que, entendam bem, não é ruim, pelo menos pra mim. Se você ainda não assistiu ao filme, vem comigo ver minhas impressões sobre ele, e se você já assistiu (provavelmente!), vamos ver se a gente concorda, beleza?



TÍTULO: A Barraca do Beijo
TÍTULO ORIGINAL: The Kissing Booth
PRODUTORA: Netflix
ANO DE LANÇAMENTO: 2018
TEMPO DE DURAÇÃO: 105 minutos
SINOPSE: Melhores amigos desde sempre, Elle e Lee têm a inventiva ideia de gerenciar uma barraca do beijo durante um evento da escola. Para fazer da proposta um sucesso, a garota tenta convencer o galã Noah, seu crush e irmão mais velho de Lee, a participar da brincadeira. Ele se mostra irredutível, mas os dois acabam se aproximando como nunca, o que estremece a amizade de Elle e Lee.

ATENÇÃO: A RESENHA PODE CONTER SPOILERS DO FILME

Quem nunca suspirou, riu ou chorou (ou fez tudo isso junto) com uma comédia romântica que atire o primeiro lencinho. Acho que é impossível não ter se apaixonado, ao menos uma vez na vida, por um enredo clichê e cheio de estereótipos, mas que, ao final, faz com que a gente se identifique e consiga enxergar uma parte da nossa vida refletida ali. Essa fórmula tem sido explorada com ênfase ao longo dos anos e já rendeu clássicos como 10 Coisas que Odeio em Você ou O Clube dos Cinco. A Barraca do Beijo segue nessa mesma linha e leva o espectador por esse mundo mágico da adolescência e das descobertas, que (na maioria das vezes) são fadadas ao fracasso.

O filme é estrelado por Joey King, Joel Courtney e Jacob Elordi, e inicialmente nos apresenta a Elle e Lee, dois amigos de infância completamente inseparáveis (eles até nasceram no mesmo dia!) e apaixonados por jogos de dança de fliperama. Para que essa amizade realmente funcione e nada passa ser maior do que isso, a dupla cria uma série de regras, que devem ser seguidas à risca, no intuito de proteger e preservar a relação entre os dois (a melhor delas é que diz: sempre que alguém pedir desculpas a você com um sorvete, você deve aceitá-las). Entre estas regras, temos uma em particular que acaba desencadeando todo o enredo do filme: não se envolver (e muito menos se apaixonar) por algum familiar do outro.

Na minha opinião, essa é uma regra criada especificamente para Elle, uma vez que a relação entre Lee e seu irmão Noah (o mais cobiçado do colégio) não é lá essas maravilhas. E tudo ia muito bem, até o fatídico dia da barraca do beijo. Em um evento para angariar fundos do colégio, os dois amigos tem a ideia brilhante de construírem uma barraca do beijo, com os mais populares da escola participando dela. E é nessa barraca, depois de muita armação, confusão e desespero, que Elle beija Noah pela primeira vez. A partir daí, os sentimentos reprimidos da garota pelo irmão mais velho de seu melhor amigo afloram de vez e Noah passa a enxergar Elle com outros olhos. Eles, então, decidem manter o relacionamento entre os dois oculto de Lee, para evitar a briga entre ele e a garota. Só que isso obviamente não vai dar certo e todos nós sabemos disso, não é?

Como vocês podem ver, o enredo do filme é algo relativamente simples: o casal que se curte não pode ficar junto por conta de um milhão de empecilhos e a culpa ronda todos, em algum momento. Dentro dessa premissa temos todos os elementos clichês possíveis: o nerd quietinho, a garota atrapalhada, o bonitão bad boy, as meninas populares (e insuportáveis) que vivem ferrando a vida de todo mundo que não se encaixa no mundinho delas, as confusões, os babados e gritarias típicos de tramas de comédia romântica. E aí vocês me perguntam: isso ainda funciona? E eu respondo: claro que sim!

Por que? Simplesmente porque é impossível ignorar o apelo carismático que essa fórmula traz em si. Todos nós (ou pelo menos a grande maioria) já teve um amor impossível, ou totalmente platônico, um melhor amigo que amávamos, meninas contra as quais precisávamos nos blindar e situações constrangedoras que gostaríamos de esquecer. Eu estou ciente das muitas críticas e de todas as pessoas apontando o dedo para esse estilo de filme por ele não fazer parte daquele gênero considerado o máximo, cheio de enredos complexos, personagens construídas iconicamente e finais mirabolantes. Mas, sério, galera, será que são apenas esses os filmes que a gente deveria assistir? Não sei vocês, mas eu sempre tenho aqueles dias estressantes e cheios, no quais tudo que eu quero ao final do dia é me divertir, me emocionar e suspirar com um filme. E comédia romântica é definitivamente o gênero certo, pelo menos para mim. 

A gente precisa pensar, obviamente, que o sucesso desse estilo cinematográfico não vem do nada. Existe um público, uma demanda e pessoas que consomem esse tipo de longa, por isso ele é tão recriado e construiu uma fama ao longo da história. E não, ninguém é pior que ninguém porque curte assistir esse tipo de filme. Não nos tornemos aquela geração enjoada, que cultua filmes sem nem ao menos entendê-los direito apenas porque a crítica especializada afirma que eles são obras primas incríveis (e não estou dizendo que não sejam, vejam bem). Sou da opinião de que todo mundo precisa de um refresco em algum momento e, dentro dessa proposta, não dá pra negar que A Barraca do Beijo cumpre muito bem o que promete.

Como nem só de elogios vive o bloguinho, eu também admito que o longa, na minha opinião, tem alguns problemas. Vamos falar das personagens, porque é exatamente nelas que residem essas questões nem tão positivas assim. Elle é uma garota adolescente como a maioria de nós um dia foi. Insegura, cheia de dúvidas, descobrindo-se ainda. Além disso, ela é atrapalhada ao extremo, o que garante situações hilárias e super engraçadas, apesar de um pouco forçadas as vezes. O carinho que ela sente pelo Lee é genuíno e pode ser sentido por qualquer espectador e acredito ser por isso que se torna tão angustiante acompanhá-la se esforçando ao máximo para não estragar a amizade dos dois, indo, muitas vezes, contra seus próprios desejos. O mais interessante na Elle está no fato de que o amadurecimento da personagem, em alguns aspectos, como a autoconfiança, a persistência e a vontade de lutar pelo que ela realmente deseja, acontece diante dos olhos do espectador, gradativamente, transformando o enredo em algo muito mais crível e de fácil identificação.

Lee é um amor de pessoa: dócil, fofo e totalmente dedicado à amizade entre ele e Elle. O problema dele reside na reação um tanto quanto difícil que ele mantém com o irmão mais velho, Noah. Noah é tudo que Lee não pode (ou não consegue) ser, e isso gerou um grande complexo no garoto, fazendo nascer um sentimento de que ele precisava proteger tudo ao seu redor das garras do irmão, principalmente o que ele julgava realmente importante em sua vida, que ele realmente amava, o que inclui a Elle. Eu entendo, definitivamente, a frustração que é se sentir inferior em todos os aspectos possíveis, mas não acho que isso justifique o comportamento egoísta e possessivo que Lee tem quando o assunto é a Elle. O mais engraçado é que esse comportamento surge exatamente quando Noah é envolvido na história, o que me leva a crer que ele é a grande incógnita dessa questão. Depois de assistir ao filme, posso dizer que ele realmente é o problema aqui.

Noah é o típico galã adolescente: alto (muuuuuito alto!), bonitão e com pinta de bad boy, o cara faz as meninas suspirarem e os garotos quererem se parecer com ele. A princípio, até eu mesma suspirei por ele, mas tudo muda quando ele começa a realmente mostrar-se e ganhar destaque na trama. Vejam bem, caros viajantes, que eu não estou defendendo o comportamento do Lee com relação a Elle (apesar de eu ter criado uma tendência a gostar muito mais do Lee por motivos de: ele tem a carinha fofa e ponto), mas não posso ignorar a enorme luz vermelha de alerta que Noah representa para mim. Eu me considero, depois de muitas coisas pelas quais já passei, uma mulher feminista e isso, confesso, torna meu olhar um tanto crítica demais, algumas vezes até chato. No entanto, eu não poderia construir essa resenha sem explicar o ponto de vista que eu tenho das atitudes e reações do Noah ao longo do tempo de duração do filme e, acreditem, algumas delas são bem preocupantes.

Para começo de história, Noah só passou a notar Elle de verdade depois de um episódio lamentável (sério, Netflix?) em que ela se vê obrigada a aparecer na escola com uma saia curtíssima, mostrando a todo o quanto seu corpo havia mudado. Fala sério, ser notada apenas depois de uma situação dessas não é algo que entraria na sua lista de coisas incríveis que podem acontecer, certo? Só que Elle, acredito que até um pouco ludibriada por esse novo olhar de Noah sobre ela, não percebe que o garoto é uma fonte pulsante de problemas. Em determinadas cenas do filme, Noah chega a admitir para Elle que os próprios pais já procuraram ajuda para o comportamento agressivo que aflora no garoto constantemente, mas que ninguém nunca conseguiu entender de verdade de onde isso vem. Essa agressividade se mostra explícita em vários momentos ao longo do filme, um deles com maior clareza: após o fatídico acidente da saia, todos os garotos do colégio passam a ver Elle com outros olhos (eu sei, é meio nojento mesmo) e isso simplesmente enfurece Noah, mesmo que a garota não mantenha nenhuma tipo de relacionamento com ele, ainda. O bonitão, então, passa a ameaçar todo e qualquer garoto que demonstre um interesse maior pela menina, prometendo surras e repreensões. É claro que essa é uma tática bastante eficaz para manter todos longe de Elle e abrir caminho para sua aproximação, mas, na minha opinião, é perigosamente preocupante a forma como ele demonstra interesse por ela. Como ele é lindo, alto, popular e tem uma moto, lógico que essa questão é abordada no filme como algo fofo e protetor. Mas não é, gente: é assustador!

E os problemas de Noah não param por aí: ele tem a mania irritante de querer controlar as ações de Elle. Não sei vocês, mas nada me tira mais do sério do que um cara me dizendo o que fazer e quando fazer. Noah teima em acreditar que Elle não é capaz de sair de situações difíceis por conta própria, então ele sempre aparece para "ajudar" a donzela. O problema é quando isso se torna tão profundo, a ponto de decretar as ações da própria menina: em uma cena, Elle entra furiosamente no vestiário dos caras, e Noah praticamente a obriga a sair de lá. O que Elle, em sua infinita inteligência, faz? Tira a blusa e começa a dançar na frente de todos os meninos. E toda essa cena desconcertante, que nos é apresentada como forma de empoderamento por parte da garota, vem acompanhada da narração, na voz de Elle, deixando clara que aquela atitude fazia parte do projeto "você não manda em mim" e, de quebra, incitaria o ciúme do crush bonitão. Ou seja: as atitudes da menina giram em torno de Noah, de algum forma doentia e nada saudável.

Acho que deu para perceber que o Noah não foi meu personagem preferido, certo? Mas eu realmente entendo o argumento de algumas garotas com quem conversei sobre isso, que afirmaram que Noah estava apenas sentindo algo novo e não sabia lidar com aquilo. Posso compreender isso, de verdade. O que não entra na minha cabeça é o longa tentar bancar a visão um tanto quanto complicada de que essas atitudes são positivas e demonstram o tamanho do sentimento de Noah. Acho que aqui a gente entra na questão de repercussão e do quanto essa perspectiva pode, por mais que pareça exagero, disseminar uma abordagem altamente tóxica de um relacionamento abusivo. Sei que essa não é a intenção do filme, longe de mim dizer o contrário, mas as ações do nosso galã configuram abuso e isso não pode passar despercebido.

Vocês lembram ainda da lamentável cena da saia, certo? Vamos voltar a ela mais uma vez, porque é ela que nos mostra, com todas as pistas, que as personagens masculinas dessa história cultivam valores um pouco invertidos: o final da cena mostra Elle sendo assediada por um colega de escola, que simplesmente decide que aquela roupa dava a ele o direito de apertar a bunda dela. Sim, ele fez isso, caros leitores! E isso obviamente fez com que Noah aparecesse com seu escudo protetor, pronto para socar a cara do garoto que atentou contra sua amada (leia-se ironia aqui). Resultado: todos vão parar na sala do diretor, que decide, como autoridade suprema e infalível da escola, dar a Elle a mesma punição de seu agressor, dando a deixa para que ela fosse, nesta situação, vista como também culpada pelo ocorrido. Mas o pior, meus amigos, é que, alguns minutos depois, diante de um pedido de desculpas que não convence nem o meu cãozinho, Elle aceita sair com o mesmo garoto que apertou seu bumbum. Eu sei, claro, que na adolescência fazemos algumas coisas sem pensar e das quais nos envergonhamos mais tarde (eu mesma já fiz várias), mas vocês têm noção do quanto uma atitude dessas é nociva? Aliada à punição que Elle recebeu, ela dá à garota o mesmo patamar de culpabilidade de seu agressor (e sim, vou usar essa palavra de novo porque, para mim, é isso que ele é) e torna-a cúmplice, ou até mais responsável, pelo acontecido. Ela própria se convence disso, tanto que aceita o pedido de desculpas e ainda topa sair com o carinha, como se aquele ato depravado fosse realmente uma demonstração de interesse genuíno por parte dele. Eu fiquei tão revoltada, vocês nem imaginam!

Eu juro que não queria me alongar tanto nessa conversa sobre atitudes controversas, mas acho que é importante dar ênfase também a esse lado das personagens e do próprio filme, por mais que a maioria das pessoas não concorde ou simplesmente não veja sob essa ótica. Por ser um filme destinado ao público adolescente, mais que a qualquer outro, acho indispensável uma visão adequada e saudável da mensagem que o longa passa e das conotações que sua perspectiva sobre os eventos do filme carregam. O final, sem sombra de dúvidas, se supera, ao mostrar uma possibilidade na vida de Elle, que não inclui o Noah (e que pode ser bem mais produtiva, aliás). 

Gosto dos temas que o filme aborda, como amizade, autoconfiança, descoberta de si mesmo, amadurecimento e até a efemeridade das coisas e momentos ao longo dessa fase da vida, tão conturbada e confusa, na maioria das vezes. E acho que a grande sacada do longa vem exatamente daí, da realidade que traz intrínseco a si, da identificação que proporciona. Depois de alguns surtos de nervo, mas, confesso, muito mais de risos, acho que A Barraca do Beijo cumpre o que propõe o gênero comédia romântica: um enredo despretensioso, recheado de situações hilariantes, que entretêm e prende até o final. O desfecho ainda quebra os padrões e mostra algo que, pelo menos eu, não esperava. A Barraca do Beijo é exatamente um daqueles filmes que a gente vai amar ver e rever em um fim de semana chuvoso, acompanhada de chocolate quente e cobertor, mas eu não posso deixar as ressalvas passarem batidas. Vou deixar abaixo o trailer do filme, para vocês, viajantes que ainda não assistiram ao filme.




E vocês, já assistiram ao filme? Qual sua opinião sobre o Noah? Vamos conversar! Até a próxima postagem, viajantes!

[RESENHA] Entre Quatro Paredes - B. A. Paris


Olá, viajantes!
A resenha de hoje traz para vocês um livro que há algum tempo andava parado aqui na estante, mas que eu sentia muita curiosidade em ler. E posso dizer que a experiência de leitura superou as minhas expectativas, de forma quase dolorosa. Vocês vão entender porque ao longo das minhas impressões. Agora, sem mais delongas, vamos falar de Entre Quatro Paredes, de B. A. Paris!

Entre Quatro Paredes
TÍTULO: Entre Quatro Paredes
AUTOR: B. A. Paris
EDITORA: Record
NÚMERO DE PÁGINAS: 266 páginas
SINOPSE: Grace é a esposa perfeita. Ela abriu mão do emprego para se dedicar ao marido e à casa. Agora prepara jantares maravilhosos, cuida do jardim, costura e pinta quadros fantásticos. Grace mal tem tempo de sentir falta de sua antiga vida. Ela é casada com Jack, o marido perfeito. Ele é um advogado especializado em casos de mulheres vítimas de violência e nunca perdeu uma ação no tribunal. Rico, charmoso e bonito, todos se perguntavam por que havia demorado tanto a se casar. Os dois formam um casal perfeito. Eles estão sempre juntos. Grace não comparece a um almoço sem que Jack a acompanhe. Também não tem celular, que ela diz ser uma perda de tempo. E seu e-mail é compartilhado com Jack, afinal, os dois não guardam segredos um do outro. Parece ser o casamento perfeito. Mas por que Grace não abre a porta quando a campainha toca e não atende o telefone de casa? E por que há grades na janela do seu quarto? Às vezes o casamento perfeito é a mentira perfeita.


     

*ATENÇÃO: A RESENHA PODE CONTER SPOILER DO LIVRO

Grace é uma garota como qualquer outra, com várias responsabilidades, no entanto. Sua irmã Millie tem síndrome de Down e ela sabe que, assim que seus pais resolverem aposentarem-se de vez e sua irmãzinha sair do colégio interno onde vive, a tarefa de cuidar da pequena ficará em suas mãos, o que não é nenhum sacrifício, já que as duas se amam e se dão muito bem. Porém, com todo seu tempo dedicado ao emprego que lhe exigia viagens frequentes por diversas partes do mundo, Grace preocupava-se em não poder dar a Millie todo o amor e atenção que merecia e por isso se jogou de cabeça na oportunidade que surgiu em sua vida a partir do momento que conheceu Jack, um advogado de renome, conhecido por ajudar mulheres vítimas de violência por parte de seus maridos.

Jack surgiu como um fôlego novo na vida de Grace e ela se apaixonou perdidamente por ele rapidamente. Por esse motivo, ninguém se surpreendeu quando os pombinhos anunciaram seu casamento. Agora Grace não iria precisar trabalhar, podendo dedicar-se exclusivamente a sua nova casa, à Millie e ao marido que ela tanto amava. Além disso, ao fazer 18 anos sua irmã teria um lar e uma família esperando por ela, uma vez que Jack generosamente ia trazê-la para morar com os dois. Um futuro que parecia infinitamente promissor e feliz transformou-se, entretanto, em algo negro e obscuro, a partir de uma revelação que Grace jamais poderia imaginar ou supor. O que você faria de descobrisse que o homem pelo qual se apaixonou e com o qual sonhou construir uma vida não é nada daquilo que você havia imaginado?

Entre Quatro Paredes foi indicação de uma amiga num clube de leituras do qual participei algum tempo atrás e, pela sinopse, eu me interessei pelo livro. Comprei meu exemplar mas infelizmente ele foi parar na enorme pilhas de títulos para ler assim que a oportunidade surgisse. Quando eu enfim comecei a leitura, não imaginava a quantidade imensa de emoções que ele faria surgir e isso me pegou desprevenida, mas não foi algo ruim, no sentido prático da palavra: pelo contrário, eu me vi totalmente envolvida com a história de Grace e Jack, torcendo para um final feliz que dificilmente viria.

A narrativa é organizada de forma a alternar capítulos entre passado e presente e o foco narrativo aqui é totalmente voltado para Grace, sendo, portanto, em primeira pessoa. Acredito que essa escolha não poderia ser mais acertada no caso específico desse título. O leitor acompanha todas as cenas através da visão da protagonista, e por isso consegue acompanhar de um jeito quase íntimo todos os sentimentos, as emoções e as sensações que vão surgindo com o desenrolar da trama. Essa visão tão detalhista da própria história faz de Grace uma narradora exemplar e dá ao leitor a possibilidade de entender e, mais do que isso, sentir, exatamente o que a personagem passa durante cada situação e, na minha opinião, é essa perspectiva em primeira pessoa que dá o tom definitivo de intensidade e dramaticidade que o livro carrega.

O livro inicia com a cena de um jantar entre o casal protagonista e seus amigos mais próximos. Ali somo apresentados ao relacionamento perfeito de Jack e Grace e conhecemos o início de sua história. A sensação de desconforto, que vai se estender ao longo de toda a narrativa, começa já nesta parte inicial da trama, na qual o leitor consegue perceber pistas (pequenas, mas contundentes) de que talvez a relação entre Jack e Grace não seja assim tão consistente e irrepreensível como eles querem fazer parecer. Espero não dar um spoiler gigante, mas não há maneira de continuar essa resenha sem mencionar esse detalhe tão importante na história: esse é um livro que trata de abuso. E não, eu não estou falando de todos os casos que Jack bravamente defende como advogado, das mulheres que salva ou dos covardes que manda para a cadeia. Estou falando, sim, da relação entre ele e sua tão amada esposa.

Acho que aqui vale destacar, caso você, caro viajante, ainda não tenha se dado conta disso, que a violência não se dá apenas em um nível físico. Muito além das dores que qualquer machucado pode causar, um dos piores lados de relacionamentos abusivos se mostra psicológico, a partir de palavras, ameaças e restrições que afetam diretamente a vida do parceiro. É exatamente esse abuso psicológico que tanto incomoda ao longo deste livro em específico, e mais do incomoda inquieta: é como se o leitor pudesse entrar na história e sentisse todos os medos, angústias e aflições de Grace a partir do momento que seu marido se revela um perfeito psicopata. E, diferente do que muitos de vocês podem estar imaginando, isso não acontece logo de cara, apesar de ser rápida a percepção para quem está de fora da situação. Pequenas atitudes, caprichos que não fazem sentido (como Grace deixar de lado seu emprego), um controle que parece possessivo, são essas as pistas principais que Jack deixa em seus discursos, em seus gestos, em qualquer coisa que faça relacionada à Grace. E uma das piores consequências dessa dominação exercida por ele, na minha opinião, é o fato de fazê-la pensar que todo esse cerco, essa bolha que ele criou em volta da esposa, vai fazer bem a ela de alguma forma.

É no mínimo triste ver a mudança que ocorre em Grace, interna e externamente, a partir do momento que Jack entra em sua vida. De uma mulher decidida, segura de si e bem-sucedida profissional e pessoalmente, a nossa protagonista se transforma em um ser apático, submisso e obediente, incapaz de pensar ou agir por conta própria. Grace se anula completamente dentro desse relacionamento, no início por amor, mais tarde por medo. Medo não apenas por si mesma, mas pela irmãzinha, que viria a ser mais uma vítima nas mãos de Jack. Revolta, choca e faz doer toda a situação com a qual Grace se vê envolvida. Jack, que no início mostrou-se o parceiro ideal, torna-se frio, cruel e sádico ao longo da narrativa, e também é doloroso acompanhar esse desenvolvimento.

Em várias passagens do livro me senti acuada, indefesa e frágil, junto com Grace. Em vários momentos consegui me envolver tanto com a narração de Grace, me sentir tão tocada por ela, que as lágrimas vieram quase naturalmente. Em vários trechos do livro precisei parar a leitura, controlar a respiração e pensar duas vezes antes de voltar às páginas, sempre nutrindo a esperança vã (que é também o que move Grace) de que tudo ficará bem no fim. É difícil, para não dizer impossível, não entrar dentro da trama, não se comover com a situação da protagonista, não ser empático e sensível à dor quase palpável que a destruição de todos os sonhos que Grace tanto acalentou causa dentro dela mesma. Talvez sejam esses mesmos sonhos que dão forças a ela para aguentar o que lhe é infligido, talvez seja o amor que nutre por sua irmã, talvez seja a última chama ainda acesa de que tudo aquilo não passe de um pesadelo. Na verdade, não importa. O que importa aqui é que, com uma narrativa delicada e ao mesmo tempo forte, somos levados a sentir o soco no estômago que é Entre Quatro Paredes. A autora consegue transmitir, através de sua narradora, uma situação tão real, tão concreta, que amedronta, afugenta e faz sofrer, ao mesmo tempo em que chama o leitor à realidade, coloca sobre ele a responsabilidade de não apenas acompanhar essa história, mas também pensar em qualquer atitude que possa ser tomada para remediar (se é que isso é possível) a dor e a tristeza causadas por esses abusos.

Eu entendo, também, que talvez exista em Jack algum tipo de anomalia que o torna tão cruel e o leva a tomar determinadas atitudes. Em diversas passagens da narrativa o protagonista menciona uma necessidade funesta pela violência, por se alimentar, de alguma maneira, da dor do outro. Quem sabe essa seja a verdadeira face desses abusos, o verdadeiro fator que o leva a cometer tantas atrocidades. Porém, em outras diversas passagens o leitor acompanha o sofrimento que essa situação causa em Grace, e a satisfação tremenda e incontestável que essa dor provoca em Jack. É difícil, para não dizer impossível, ficar alheio e se manter racional frente a todas as provações pelas quais a personagem principal passa. É difícil não torcer por ela, e odiar Jack, de forma avassaladora e irreversível. É difícil não querer estender a mão, abraçá-la e arrastá-la da casa que ela um dia sonhou chamar de lar. E é esse o sentimento que nos acompanha até o final da narrativa, junto a tantas outras emoções incômodas, dolorosas e fortes, que nos tiram da zona de conforto e nos desmascaram uma realidade nada bonita, mas extremamente verídica.

Mas essa resenha não é apenas feita de dor e sofrimento. Em meio a esse turbilhão de emoções, também encontramos um alívio, um sopro de brisa fresca e doce, que se chama Millie. A irmãzinha de Grace é sem dúvidas uma das melhores personagens que eu já pude conhecer nessa longa vida literária. Apesar de ninguém além de Grace acreditar realmente na capacidade da menina, sua inteligência e perspicácia vão além dos limites impostos a ela pela opinião alheia. Divertida, alegre e sempre grata aos pequenos presentes que a vida lhe reserva, Millie é um exemplo para todos nós. O amor e a admiração que ela nutre por Grace são tão fortes que ela quer protegê-la de todo e qualquer sofrimento. É impressionante a forma como a garotinha realmente sente quando algo está errado, quando Grace não se mostra bem e feliz. E é mais impressionante ainda a disposição que Millie demonstra para mudar essa situação e reverter o que tanto incomoda sua irmã. Meiga, esperta e encantadora, essas são as reais características que tornam impossível não se apaixonar pela garota.

O final da narrativa foi um dos pontos menos positivos para mim no livro. Apesar de eu respirar aliviada com ele, na minha opinião ele aconteceu de forma muito rápida, sem o aprofundamento necessário. Gostei da forma como a narrativa foi construída, de modo a entregar aos poucos para o leitor os elementos desse desfecho, e realmente não existiram pontas soltas. Minha ressalva está mais ligada ao fato de ele parecer muito corrido, como se a autora estivesse com pressa para fechar a narrativa. Independente disso, Entre Quatro Paredes não é apenas uma ótima recomendação, mas também um livro necessário, em qualquer época ou lugar. A obra criada por B. A. Paris nos faz refletir não apenas sobre um tema que bate a nossa porta em vários momentos ao longo da vida, mas também sobre nós mesmos e nossas atitudes (ou a falta delas) frente a situações como essa. Talvez por isso seja tão duro e doloroso terminar essa narrativa, ao mesmo tempo em que é preciso terminá-la. Mais do que isso: é preciso compreender que ela não se encerra na última página lida. Há muitas Graces esperando ajuda por aí, muitos Jacks espalhando terror e medo, e nós, como seres humanos, temos o dever de ficar atentos a esse tipo de situação e fazer o que for possível para ajudar.

E vocês, já leram o livro? O que acharam? Me contem nos comentários, combinado? E perdoem a resenha gigante de alguém que realmente se sentiu extremamente tocada por esse livro (rs). Até a próxima postagem!